O muro de Berlim e o muro na frente do Congresso de Brasilia |
Percorrendo as trilhas do muro marcadas no asfalto, olhando e tocando os restos do muro com tudo aquilo que está relacionado a história do nazismo, visitando os memoriais e lugares de visitação etc. pude perceber como uma grande maioria de visitantes era formada por jovens, estudantes da própria Alemanha com seus professores. Tudo escrito em alemão primeiro e inglês. Esta memoria concreta, a céu aberto, está exposta para o povo alemão, em primeiro lugar, para as gerações presentes e futuras, para lembrar os horrores que um povo na figura dos seus representantes pode promover por meio das suas escolhas políticas e da sua participação direta ou indireta. Mas o que me impressionou foi perceber que este povo, fruto desta história, faz questão de se deparar com seu passado recente dramático. Não considera página virada esta história, mas descortina suas mazelas, expõe suas feridas ainda vivas e as apresenta aos visitantes, locais e estrangeiros. Uma catarse, vontade de se regenerar/redimir para nunca mais repetir. Este muro da vergonha agora é motivo para reflexão, superação.
De volta ao Brasil me veio espontânea a comparação com nossos muitos muros brasileiros, ainda em parte encobertos, não assumidos, pouco mostrados para nossa sociedade que se considera ainda cordial, acolhedora, mas que não enfrentou seu passado antigo e recente dramático.
Que bom seria que em todas nossas cidades tivéssemos monumentos aos negros, aos índios, as vítimas da ditadura, as vítimas de todo tipo de preconceito, memoriais aos resistentes que não se conformaram e não se conformam com esta sociedade injusta.
Que bom seria se os estudantes pudessem visitar as masmorras dos horrores da escravidão, perpetuada por elites predadoras, por uma sociedade escravocrata branca que ainda em parte quer perpetuar formas mais modernas de escravidão.
Que bom seria se nas escolas nosso passado triste fosse estudado para nunca mais repeti-lo.
Este pais foi construído sobre a destruição dos índios, o esmagamento dos escravizados, do proletariado mantido por séculos subjugado. E os muros mentais que separam as favelas da sociedade branca e que nunca foram derrubados? Os muros do preconceito de sexo? E a memória da ditadura que muitos ainda não chamam pelo nome e nem é colocada na berlinda da história recente do nosso pais? Os muros que se erguem no nosso parlamento por muitos corruptos incapazes de perceber sua desumanidade, sua ganancia, seu cinismo, incapazes de pronunciar o nome pobres, explorados, marginalizados. Quanto incomoda as elites ter que conviver no mesmo avião, na mesma universidade, em todo lugar possível com brasileiros que graças a políticas de inclusão acertadas tiveram a possibilidade de ser incluídos.
Muros e muros, histórias de exclusão, de dor mal contada ou nunca contada de injustiças monumentais que foram assimiladas e esquecidas na nossa sociedade?
Nosso pais é marcado por muros imensos. Até tem quem queira erguer muros para separar o norte do sul para isolar o nordeste.... nós, o país mais católico do mundo! E o muro quase simbólico erguido na frente do parlamento: dois lados separados porquê de fato representam os dois Brasis.
Enquanto o Brasil não tiver coragem de expor suas mazelas, suas feridas, revisitar seu passado dramático, para que não se perpetue no presente e no futuro, continuaremos nos iludindo. E para não fugir do grande muro que está sendo erguido pelo processo contra a democracia, pelo golpe, onde uma minoria de parlamentares desprezam a maioria do voto popular, a serviço de uma burguesia que não aceita um Brasil para todos mas quer continuar como o Brasil de minorias, sentados em cima dos que sempre foram excluídos. O cinismo e cegueira tomaram conta das nossas elites, insaciáveis abutres que sempre dominaram o pais.
Os parlamentares, muitos deles coroinhas covardes e aves de rapina que usam o voto do povo, muitas vezes comprado, para se perpetuar no poder e perpetuar seus padrinhos no espolio da riqueza que deveria ser de todos.