terça-feira, 17 de maio de 2016

Toda a exposição Áfricas em PDF

Como prometido hoje posto os links para poder baixar todos os pdf dos banners da exposição Áfricas. A utilização é livre, favor citar a fonte.

POR QUE A EXPOSIÇÃO ÁFRICAS?
https://drive.google.com/open?id=0B_jlZF002awzYWlmaUNsYUhIZ0k 

O GRUPO DE LUANDA VÊSÓ
https://drive.google.com/open?id=0B_jlZF002awzU2I2dGN4bEdKUnc 

LINHA DO TEMPO DA ÁFRICA
https://drive.google.com/open?id=0B_jlZF002awzN2cwNlk5MV9lWVE 

A MIGRAÇÃO DO HOMEM
https://drive.google.com/open?id=0B_jlZF002awzOVZYeHE0WnRiRkk 

DESCOBRIMENTOS E EXPLORAÇÕES PORTUGUESES NA ÁFRICA https://drive.google.com/open?id=0B_jlZF002awzTGRRcDZ6MGUwSVE

A ESCRAVIZAÇÃO DA ÁFRICA
https://drive.google.com/open?id=0B_jlZF002awzZ1loVE9Ec0VNN0U

A PARTILHA DA ÁFRICA PELOS PAÍSES EUROPEUS
https://drive.google.com/open?id=0B_jlZF002awzQVBFREtobzFqa2s

POPULAÇÃO, SUPERFÍCIE E DENSIDADE HABITACIONAL DOS PAÍSES DA ÁFRICA https://drive.google.com/open?id=0B_jlZF002awzX0dwdlhhOHJpa0k 

MAPA DE PAÍSES DA ÁFRICA POR ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO (IDH) https://drive.google.com/open?id=0B_jlZF002awzWEk2ckI2aWNZdDg 

ORIGEM - CAUSAS DOS CONFLITOS EM ÁFRICA E AS GUERRAS ESQUECIDAS https://drive.google.com/open?id=0B_jlZF002awzSGR3Z3JoaW13Ylk 

CONFLITOS E VIOLÊNCIA NA ÁFRICA 2015
https://drive.google.com/open?id=0B_jlZF002awzemQ2Nm1CLU9ueDA

A SITUAÇÃO POLÍTICA NA ÁFRICA
https://drive.google.com/open?id=0B_jlZF002awzVzkydTNUMVY3TEU 

AS RELIGIÕES NA ÁFRICA
https://drive.google.com/open?id=0B_jlZF002awzUWUza0JPV0h1ZGc 

A PILHAGEM DA ÁFRICA
https://drive.google.com/open?id=0B_jlZF002awzMHcxNXNPYVlMVHM

A CHINA NA ÁFRICA: VANTAGENS OU DESVANTAGENS?
https://drive.google.com/open?id=0B_jlZF002awzUm9LeC1KMGxDQ0k 

AS ÁFRICAS DAS LETRAS
https://drive.google.com/open?id=0B_jlZF002awzTENNWXRNc0EyckE

GRUPOS ETNOLINGUÍSTICOS
https://drive.google.com/open?id=0B_jlZF002awzd2J4Ylg3YUJoUUU 

TAXA DE ALFABETIZAÇÃO NA ÁFRICA
https://drive.google.com/open?id=0B_jlZF002awzM2pKNXVTdUsxc2s 

ESCRITORES AFRICANOS LUSÓFONOS
https://drive.google.com/open?id=0B_jlZF002awzN3oxaThpa3NzTXM 

ESCRITORES AFRICANOS ANGLÓFONOS E FRANCÓFONOS
https://drive.google.com/open?id=0B_jlZF002awzU3Y0a1cxZnZocms 

O CRISTIANISMO COPTO DA ETIÓPIA
https://drive.google.com/open?id=0B_jlZF002awzaWw1ZGJmZmt5Zm8 

ENTRE AFRO-PESSIMISMO E AFRO-OTIMISMO
https://drive.google.com/open?id=0B_jlZF002awzNENOaXRjZ1Nmb3c

No dia da África, vem pra Áfricas

Quer saber quantas Áfricas existem? Vem pra a exposição Áfricas e encontraras respostas a muitas perguntas.



ÁFRICAS, no plural, para evidenciar a diversidade e a multiplicidade da África.

  • Um continente; 
  • 55 países; 
  • mais de 30 milhões de quilômetros quadrados (20,3 % da área total da terra firme do planeta);
  • mais de um bilhão e 60 milhões de habitantes (segundo continente mais populoso depois da Ásia); 
  • mais de 2 mil e cem grupos étnico linguísticos 
  • o continente mais rico do mundo: no seu subsolo jaz um terço das reservas minerais do planeta; 
  • o continente mais pobre do mundo: dos quarenta países com o PIB per capita mais baixo do mundo, trinta e um são africanos. 

A exposição é dividida em três secções temáticas. 

Secção histórico-social-política: BiogrÁfricas 12 banners dedicados a: 
  • linha do tempo do continente (10 metros de comprimento), 
  • migração da humanidade de África para os outros continentes, 
  • descobrimentos e explorações portugueses na África, 
  • escravização antiga e moderna da África, 
  • colonização europeia do continente, superfície - população e densidade habitacional, 
  • índice de desenvolvimento humano por país (IDH), 
  • situação política na África, 
  • guerras e conflitos em andamento, 
  • religiões na África, 
  • saque das matérias primas do continente, 
  • presença chinesa em concorrência com países e multinacionais ocidentais, 
  • afro-pessimismo e afro-otimismo. 


Secção fotográfica: FotogrÁfricas 
  • Trezentos e cinco (305) fotografias de catorze (14) países (África do Sul, Angola, Argélia, Benim, Cabo Verde, Etiópia, Gana, Marrocos, Moçambique, Namíbia, Senegal, São Tomé, Tanzânia, Zâmbia,); 
  • 38 fotógrafos (6 italianos, 3 portugueses, 1 cabo-verdiano, 1 moçambicano, 1 brasileiro e 26 angolanos do Grupo VêSó de Luanda). 


Secção literária: BibliogrÁfricas 
  • Exposição de cento e oitenta (180) livros de 53 autores africanos de 19 países. 
  • Cinco banners explicativos sobre: grupos étnicos linguísticos, línguas oficiais, taxa de alfabetização, escritores lusófonos, escritores francófonos e anglófonos. 

Um grande mapa, desenhado no chão, permitirá um passeio através os vários países da África. 


Porque a exposição Áfricas? 
No mês de maio de 2004 tive o meu primeiro encontro com um quilombo: uma visita rápida à comunidade quilombola de Pedra d’Água. Foi amor à primeira vista. Daí nasceu o meu interesse em conhecer o mais possível sobre o lugar das “raízes”, a África, cuja existência muitas vezes era ligada mais a fantasias míticas do que a conhecimentos reais. 
Até hoje viajei em seis países da África: Argélia, Marrocos, Etiópia, Zâmbia, Gana e Senegal, cada vez voltando ao Brasil com novos conhecimentos a partilhar através exposições, palestras e seminários. 
As primeiras exposições foram organizadas na Universidade Federal de João Pessoa (UFPB) e, a seguir, em várias localidades da Paraíba e da Itália, sempre visando evidenciar a estreita relação entre quilombos e África. Principais exposições sobre a África e os quilombos da Paraíba: 
  • “Retratos do povo negro da Etiópia e do povo das Comunidades afrodescendentes da Paraíba”, 2008, SESI – João Pessoa; 
  • “OLHANDO: de dentro para dentro, de dentro para fora”, 2010 – SESC Centro – João Pessoa.
  • “IDENTIDADE QUILOMBOLA: auto percepção e comunicação - O quilombo de Matão visto por si mesmo, 2010 - Centro Cultural São Francisco – João Pessoa 
  • “A costa do ouro: mina de escravos”, 2011 – Estação Cabo Branco Ciência Cultura & Artes
  • “Quilombos da Paraíba – a realidade de hoje e os desafios para o futuro”, 2012 - Estação Cabo Branco Ciência Cultura & Artes – João Pessoa PB 
  • “Quilombos da Paraíba – a realidade de hoje e os desafios para o futuro”, 2012 – MAC Museu Assis Chateaubriand – Campina Grande/PB 
  • “Il popolo quilombola: um Brasile sconosciuto”, 2013 – Trento, Itália 
  • “Feminino quilombola”, 2014 - Estação Cabo Branco Ciência Cultura & Artes – João Pessoa
  • “Il popolo quilombola: um Brasile sconosciuto”, 2014 – Milano, Itália 
  • “Troncos velhos – Galhos Novos, o legado intergeracional nos quilombos, 2015 - Estação Cabo Branco Ciência Cultura & Artes – João Pessoa PB. 
No entanto, a ação sinérgica com o movimento quilombola me levou a organizar, em colaboração com alguns antropólogos, a publicação do livro “QUILOMBOS DA PARAÍBA” (BANAL, Alberto; FORTES, Maria E. P. (Orgs.). 
Quilombos da Paraíba: A realidade de hoje e os desafios para o futuro. João Pessoa: Imprell Gráfica e Editora, 2013). 


Nesta altura me pareceu sempre mais necessário produzir algo que pudesse contribuir para um conhecimento mais abrangente e, no mesmo tempo, menos estereotipado e mítico do continente África no que diz respeito a sua história e aos vários aspectos da sua realidade atual. 
Meses de pesquisas consultando as mais variadas fontes oficiais e independentes me proporcionaram o material para a produção da parte “cultural”, no entanto que estava conseguindo construir uma ampla rede de fotógrafos a nível internacional: um patrimônio visual de olhares diferentes e complementares sobre catorze (14) países da África. 
Enfim graças a uma minuciosa procura em livrarias físicas e virtuais, no Brasil e no Portugal, consegui reunir cento e oitenta (180) livros de autores africanos escritos ou traduzidos em língua portuguesa. 

Áfricas de Alberto Banal com a curadoria de Lúcia França 
07 de maio a 14 de agosto de 2016 - Estação Cabo Branco Ciência Cultura e Artes, Torre Mirante -João Pessoa/PB 





Apoio: Associação de apoio as comunidades afrodescendentes – AACADE, Coordenação estadual comunidades negras e quilombolas – CECNEQ, ESCRILENDO, FOTÓGRAFOS DE RUA, UNITI PER LA VITA, JUST DANCE ITALIA. 

Numa canetada, o recuo de 15 anos na política de terras quilombolas

Desde 2004, o DEM, partido agora responsável pela demarcação, trava uma batalha contra os quilombos 

por Maíra Kubík Mano - publicado 17/05/2016 08h53

Em imagem de novembro de 2015, Dona Tacira Julião Alves, remanescente quilombola, mostra sua roça na Ilha de Marambaia (RJ) 
A sensação que tenho nesses dias é que o teto está desabando sobre nossas cabeças. As perdas e retrocessos, que já vinham se delineando no horizonte há algum tempo, adquiriram uma velocidade assustadora. 
A reforma ministerial de Michel Temer, que excluiu mulheres e negros e negras, enterrou a Cultura e deixou a Ciência e a Tecnologia para serem engolidas pelas Comunicações, fez dos quilombolas um dos grupos mais atingidos. 
Pela catastrófica Medida Provisória 276/2016, a atribuição das demarcações de terras quilombolas saiu do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e passou ao novo MEC, o Ministério da Educação e Cultura. 
“Se os governos Lula e Dilma apresentaram déficits de desempenho na efetivação desses direitos, agora temos a restauração da inviabilidade operacional desta política, lançada no limbo de uma estrutura inexistente e sob discurso de enxugamento da máquina pública”, afirma Pedro Teixeira Diamantino, professor de Direito Ambiental da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e membro da Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais no Estado da Bahia (AATR). 

No texto abaixo, Diamantino esmiúça a trajetória da política de demarcação de terras quilombolas no Brasil e nos abre os olhos sobre o panorama dramático que viveremos. Precisamos, citando aqui Davi Yanomami, pensar em como vamos suspender esse céu que caiu sobre nós. 

Numa canetada, o recuo de 15 anos na política de terras quilombolas 

Por Pedro Teixeira Diamantino 

Passados cem anos da abolição da escravatura, os quilombos voltaram a figurar na cena normativa e política do País com a Constituição de 1988. O artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias diz que “Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras, é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes títulos respectivos”. 
Se antes de 1888 a noção de quilombo referia-se à conduta desviante da ordem jurídica escravista oficial, definida pelo rei de Portugal em consulta realizada pelo Conselho Ultramarino, em 1740, a partir da Lei Áurea a palavra parecia não fazer sentido para os donos do poder. E os quilombos desapareceram do sistema normativo brasileiro. 
As mobilizações da redemocratização furaram o cerco do projeto de Constituição de “notáveis” e reintroduziram a categoria quilombo na cena jurídica atual, liberando-a da condição de referência para atuação dos aparatos repressivos do escravismo para instituir novos direitos e sujeitos. 
O protagonismo dos quilombos na esfera pública em transição democrática veio ao encontro da ruptura teórica com os lugares comuns da historiografia positivista, do folclore, do mito da democracia racial, do autoritarismo das elites, do sentido comum teórico dos juristas. 
O termo quilombo foi, portanto, sendo desamarrado daquele passado interditado, sem pontes para o presente, para projetar experiências e reivindicações emancipatórias atualizadas, instituindo um genuíno direito fundamental de reparação pela opressão histórica vivenciada por estes grupos, ontem e hoje. 
Desta maneira, os quilombos deslocaram-se do lugar de resíduo sociopolítico e jurídico para ocupar lugar de destaque na questão agrária e racial brasileira nos últimos anos. 
O principal instrumento normativo que regulamenta os procedimentos administrativos para o reconhecimento dos direitos constitucionais das comunidades quilombolas é o Decreto 4887/2003, fruto de amplos debates ocorridos no início do governo Lula. 
Pelo decreto, as comunidades quilombolas são “grupos étnico-raciais, segundo critérios de auto-atribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida” (art. 2º). 
Esta perspectiva conceitual, sintonizada com a Convenção 169 da OIT, traduz as reivindicações e demandas das comunidades por efetivação de direitos, estimadas em cinco mil, segundo a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Quilombolas. 
O Decreto 4887/2003 revogou o anterior, nº 3912 de 2001, da era Fernando Henrique Cardoso, e institucionalizou a superação da perspectiva redutora que inviabilizava o desenvolvimento de políticas capazes de dar efetividade ao art. 68 do ADCT/88, acolhendo os novos conceitos e retirando do Ministério da Cultura a competência para identificação, demarcação, delimitação e titulação das terras. 

Quilombolas no RJ Quilombolas preservam costumes na ilha de Marambaia (RJ) (Foto: Tânia Rego / Agência Brasil)
Tal competência foi atribuída ao Incra, órgão federal executor da política agrária, dado que o Ministério da Cultura jamais teve estrutura operacional e tampouco cultura institucional para o trato com questões fundiárias, sejam elas agrárias ou urbanas. 
O atual decreto apresenta sérios defeitos, como o excesso de procedimentos e morosidade, mas também o de expressar uma política normativa vulnerável, já que todo o escopo das medidas para a implementação de direitos, sem lei em sentido estrito que lhe ampare, fica à mercê da vontade governamental: decretos presidenciais vem e se vão com os governos. 
Com o afastamento temporário de Dilma do exercício da Presidência da República, o governo interino editou a Medida Provisória nº 726 para reorganização dos ministérios. Entre as mudanças, salta aos olhos a extinção o Ministério do Desenvolvimento Agrário e sua fusão com a pasta de Desenvolvimento Social, sinalizando para o aprofundamento do sucateamento do Incra. 
Outra mudança foi a fusão das pastas da Educação e da Cultura, causando preocupação com possível dispersão da área de cultura na estrutura de educação. 
Quanto aos quilombolas, aos dois arranjos referidos, soma-se a alteração contida no artigo 27, IV, j, da MP nº 726, que torna compete o Ministério da Educação e Cultura para realizar “a delimitação das terras dos remanescentes das comunidades dos quilombos, bem como determinação de suas demarcações, que serão homologadas mediante decreto”, retirando do Incra, a autarquia responsável pela execução da política agrária, esta atribuição que lhe é própria. 
Numa canetada, o recuo de 15 anos na política de terras quilombolas. Retorna-se ao superado patamar da política quilombola de FHC, que impunha ao Ministério da Cultura atribuições que lhe eram totalmente estranhas, tais como a realização de intervenções de natureza fundiária. 
Se os governos Lula e Dilma apresentaram déficits de desempenho na efetivação desses direitos, agora temos a restauração da inviabilidade operacional desta política, lançada no limbo de uma estrutura inexistente e sob discurso de enxugamento da máquina pública. 
Além de caminhar em sentido oposto à propalada eficiência administrativa, a medida conduz à revisão do Decreto 4887/2003, ainda que seja para adaptá-lo à reestruturação dos ministérios. 
Por isto é bom destacar que o novo ministro da Educação e Cultura, Mendonça Filho, pertence ao Partido Democratas (DEM). Ele será o responsável por conduzir, com sua súcia, a revisão do Decreto 4887/2003. 
É lembrar que desde 2004 o DEM trava uma batalha judicial no Supremo Tribunal Federal para golpear o Decreto 4887/2003. Na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 3239, o partido questiona a constitucionalidade da definição contemporânea de quilombos e de territorialidade partindo de uma mentalidade proprietária do século XIX. 
Almejam que os efeitos dos direitos constitucionais quilombolas de 1988 alcancem somente as comunidades que comprovem cientificamente a sua existência em data anterior à data da abolição legal da escravatura, desconsiderando a espoliação histórica das identidades subalternizadas. Noutra tacada, defendem que as terras a serem tituladas pelo Poder Público sejam, apenas, aquelas possuídas na data de promulgação da Constituição atual, desconsiderando-se a espoliação física ao longo dos anos. 
Dito isto, o que podemos esperar da política quilombola sob a batuta de Michel Temer e Mendonça Filho? Este arranjo político-institucional da alardeada ponte para o futuro está mais para uma pinguela de volta ao passado, um indisfarçável golpe contra milhares de comunidades negras quilombolas do Brasil.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Nota da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas – CONAQ contra a Pauta Quilombola no MINC

Não bastasse o Brasil ter sido o último país das Américas a abolir o regime escravocrata, assim como a falsa ‘abolição’ que ‘deu’ a liberdade aos negros (as), mas não lhes garantiu direitos fundamentais, como acesso à terra, à moradia, educação, enfim, às condições necessárias que permitissem exercer uma cidadania de fato, em pleno 13 de maio de 2016, assistimos uma estratégia orquestrada entre a elite brasileira, Senado, Congresso e o Judiciário rasgando a CF de 88 diante dos nossos olhos e com chances reais de um retrocesso sem proporção aos direitos humanos, civis e sociais, quando as políticas públicas sociais são leiloadas pelo Presidente Interino Michel Temer no Brasil. Ainda sem entender quais acordos levaram o Presidente Interino a entregar a Pauta Quilombola para o Ministério da Cultura e Educação, que por sua vez tem a frente o Deputado Federal Mendonça Filho (DEM-PE), voltamos ao ano 2000 na era FHC que cometiam o ‘erro’ de uma visão equivocada da forma de existência e organização dos quilombos no país. Lamentamos e não aceitamos que fique sob a competência deste Ministério e deste senhor, delimitar e demarcar os territórios quilombolas no Brasil, pois com isso o INCRA perde a atribuição pela titulação.

A Pauta de demarcação de Territórios Quilombolas no MINC com o DEM, é a certeza que nenhuma titulação irá avançar, nenhum território será titulado, pelo contrário tememos perder o pouco que conquistamos nesses longos anos de luta, pois, é sabido que o DEM juntamente com a Bancada Ruralista é contra os (as) quilombolas pois defendem os seus interesses próprios e do Agronegócio, grandes latifúndios, grandes empresas e não a permanência nos Territórios dos (as) quilombolas.

O atual Ministro e seu Partido, na época PFL, move uma Ação Direta de Inconstitucionalidade, que se arrasta há mais de 12 anos no STF, em face do Decreto 4.887, de 20 de novembro de 2003, que regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação dos Territórios quilombolas que é objeto do art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988 e tememos que diante do cenário político atual, onde todo o direito do povo é ‘revisto’ é retirado para atender os interesses dos que sempre foram privilegiados, e na ‘agilidade’ do Congresso e Senado em votar pautas de seus interesses, recaia sobre nós quilombolas a conta desses acordos para a possível governabilidade do Presidente Interino Michel Temer.

É obrigação do Estado, agir positivamente para alcançar o resultado pretendido pela Constituição, ora por medidas legislativas, ora por políticas e programas implementados pelo Executivo são garantias dos direitos para nós quilombolas.

Está em curso um retrocesso inimaginável com um prejuízo histórico aos mais de 5 mil quilombos com aproximadamente 16 milhões de pessoas no Brasil, e convocamos todos (as) quilombolas, parceiros, apoiadores, lutadores (as) do povo, todos os irmãos e irmãs quilombolas das Américas, aos órgãos internacionais de defesa dos direitos humanos e da vida, a lutar conosco contra esse Golpe a Democracia brasileira, contra esse Golpe aos Direitos dos (as) quilombolas, contra esse Golpe que extinguiu SEPPIR, SPM, SDH, MDA e MDS, contra o Golpe arquitetado por políticos racista, ruralista, machista, homofóbicos, intolerantes que excluem e não respeitam os votos de mais de 54 milhões de brasileiros (as).

Somos detentores (as) da Ancestralidade, exigimos respeito pelo nosso templo sagrado que é nosso Território, com nossa fé, nossa cultura e nosso modo singular de viver.

Precisamos é de mais políticas públicas, de mais titulações de território quilombolas, de mais educação, saúde, moradia, saneamento, um meio ambiente saudável e sustentável, de respeito as nossas tradições e a história oral de um povo, precisamos é do bem viver em nossos quilombos e não voltar ao descaso, esquecimento, abandono e mazelas como sempre foi feito em governos anteriores e por isso exigimos:

  • Que a Pauta Quilombola retorne imediatamente ser competência do INCRA, para titular os Territórios Quilombolas, dentro da nova fusão dos Ministérios Desenvolvimento Agrário e Desenvolvimento Social e Combate a Fome; 
  • Que fica sob a competência do MINC através da FCP a pauta sobre as Certificações dos Quilombos; 
  • O reconhecimento de nós quilombolas como Público da Reforma Agrária, conforme a Portaria nº 175 de 19 de abril de 2016, assim sendo não compete ao MINC tal função; 
  • Que a SEPPIR não seja desmantelada para que possa continuar executando o seu papel sendo a ponte entre os (as) quilombolas e o Governo Interino de Michel Temer, executando as políticas do Programa Brasil Quilombola, assim sendo não podem reduzir a SEPPIR numa simples ‘pasta’ no ‘novo’ Ministério da Justiça e Cidadania; 
  • Que o Estado Brasileiro cumpra e respeite as determinações do Decreto 4887 de 2003, foi uma conquista do Movimento Negro, ONGs e Quilombolas este Decreto que compões mais da metade da população no Brasil; 
  • Que o Brasil respeite os (as) negros (as), os (as) quilombolas, os (as) indígenas, os (as) Camponeses (as) e todos os povos que compõe a formação desta Pátria, que resistem e lutam, pois nunca estiveram adormecidos (as) ou não existiríamos mais; 
  • Que o Brasil respeite os Tratados, Convenções e Acordos Internacionais assinados, firmados para combater o Racismo, a violência no campo e na cidade, os conflitos agrários, os direitos humanos, a terra, a vida dos (as) brasileiros e brasileiras lutadores (as) desta Pátria. 
Sabemos que a luta é árdua e nada para nós negros (as) neste país veio de graça, ou pela bondade como contam erroneamente as histórias nas escolas, suportamos e sobrevivemos as piores atrocidades cometidas com um ser humano, e aguerridos (as) pelo sangue de Dandara dos Palmares, Zumbi, Teresa de Benguela e tantos (as) guerreiros (as) que deram sua vida por uma sociedade mais justa, humana e igualitária, que dizemos NÃO VAMOS PERMITIR RETROCESSOS, não vamos dar nenhum passo atrás, não vamos permitir NENHUM DIREITO A MENOS

Brasília – DF, 13 de maio de 2016. 
CONAQ, 20 anos de Luta e Nenhum Direito a Menos! 
Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombola – CONAQ

Investigadores investigados na CPI da FUNAI e do INCRA

Constituída em 4 de novembro de 2015, a Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar a atuação da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) na demarcação de terras indígenas e de remanescentes de quilombos – CPIFUNAI, chegou a sua décima reunião sem alcançar resultados significativos.

No entanto acho vale a pena conhecer de perto os deputados que integram a Mesa da Comissão.

A primeira (não) surpresa é ver que todos os membros participam da Bancada ruralista e quatro no mesmo tempo da Bancada Evangélica (uma casamento diabólico). Um milagre da fé esperar objetividade por estes inimigos declarados de indígenas e quilombolas.

Ainda mais interessante e preocupante é a analise da ficha judicial deles: somente os dois Sub-Relatores são ficha limpa (Valdir Colatto e Tereza Cristina). Os demais são campeãs de inquéritos de todos os tipos, sendo o Relator Nilson Leitão (PSDB-MS) o recordista absoluto com 18 processos em andamento.

Presidente: Alceu Moreira (PMDB-RS), Bancada evangélica, Bancada ruralista 
Comerciante e ex-Secretário de Habitação no Rio Grande do Sul.
Foi condenado em duas ações civis por improbidade administrativa 
RESPONDE EM PROCESSOS JUDICIAIS:
1. TJ-RS - Comarca de Osório - Ação civil pública nº 0091151-06.2003.8.21.0059 - Foi condenado por improbidade administrativa. A Justiça considerou que houve desvio de finalidade na contratação de dois funcionários pela prefeitura de Osório e determinou o ressarcimento de danos ao erário e o pagamento de multa. O parlamentar interpôs recurso, que foi negado: TJ-RS - Recurso especial nº 0107085-84.2013.8.21.7000. Em seguida, interpôs agravo em terceira instância contra a decisão que negou seguimento ao recurso, mas ela foi mantida: STJ - Agravo em recurso especial nº 453371/2013.

2. TJ-RS - Comarca de Osório - Ação civil pública nº 0012131-24.2007.8.21.0059 - Réu em processo por improbidade administrativa, foi condenado em segunda instância ao pagamento de multa por contratação irregular de funcionário público: TJ-RS - Apelação nº 0635778-26.2010.8.21.7000. O parlamentar interpôs o STJ - Recurso especial nº 1414761/2013, julgado prejudicado.

3. TRE-RS - Representação nº 2592006 - Foi condenado ao pagamento de multa por conduta vedada a agente público (uso irregular de serviço social de saúde pública). A decisão foi mantida em segunda instância: TSE - Recurso ordinário nº 1366/ 2007. 4. STF - Inquérito nº 3076/2011 - É alvo de inquérito que apura crimes da Lei de licitações e corrupção passiva. O processo corre sob segredo de justiça.
http://www.atlaspolitico.com.br/perfil/2/317 

Vice-Presidente: Luís Carlos Heinze (PP-RS), Bancada evangélica - Bancada ruralista Engenheiro Agrônomo e Produtor Rural
Alvo da Operação Lava Jato 
RESPONDE EM PROCESSOS:
1. STF - Inquérito nº 3989/2015 - É alvo de inquérito aberto com a Operação Lava Jato da Policia Federal, que investiga esquema de corrupção, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro com recursos desviados da Petrobras.
Ficou famosa a sua afirmação: "No mesmo governo, seu Gilberto Carvalho, também ministro da presidenta Dilma, estão aninhados quilombolas, índios, gays, lésbicas, tudo que não presta, e eles têm a direção e o comando do governo" (http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2014/02/em-video-deputado-diz-que-indios-gays-e-quilombos-nao-prestam.html) http://www.atlaspolitico.com.br/perfil/2/421 

2° Vice-Presidente: Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS), Bancada ruralista
Médico e ex-Secretário de Saúde de Campo Grande.
Alvo de ações civis de improbidade administrativa no TRF-3 
RESPONDE EM PROCESSOS JUDICIAIS:
1. STF - Inquérito nº 3949/2015 - É alvo de inquérito que apura crime da Lei de Licitações e tráfico de influência. É alvo de ações civis de improbidade administrativa com dano ao erário na Justiça Federal, ajuizadas pelo MPF.

2. TRF-3 - Seção Judiciária de Mato Grosso do Sul - Ação civil pública nº 0001767-71.2015.4.03.6000
http://www.atlaspolitico.com.br/perfil/2/253 

3° Vice-Presidente: Nelson Marquezelli (PTB-SP), Bancada evangélica - Bancada ruralista Advogado e agropecuarista - Presidiu o Sindicato Rural de Pirassununga
RESPONDE EM PROCESSOS JUDICIAIS:
1. TRE-SP - Prestação de contas nº 1053085.2010.626.0000 - Teve reprovada prestação de contas referente às eleições de 2010. Recorreu da decisão, que foi mantida: TSE - Agravo nº 1053085/2011. 

2. TJ-SP - Comarca de Pirassununga - Ação civil pública nº 0007484-05.2013.8.26.0457 - É alvo de ação civil pública por dano ambiental movida pelo Ministério Público Estadual. Teve decretada a indisponibilidade de bens e o bloqueio eletrônico de ativos financeiros.

3. STF - Inquérito nº 4144/2015 - É alvo de inquérito penal ajuizado pelo Ministério Público Federal. http://www.atlaspolitico.com.br/perfil/2/427 

Relator: Nilson Leitão (PSDB-MS), Bancada ruralista 
Empresário, ex-prefeito de Sinop. Político veterano do PSDB
RESPONDE EM PROCESSOS JUDICIAIS
1. TRE-MT - Prestação de contas nº 700753.2008.611.0000 - Diretório estadual do PSDB teve as contas referente ao exercício de 2007 reprovadas, quando o parlamentar era presidente. O partido recorreu, mas a decisão foi mantida.

2. TRE-MT - Prestação de contas nº 13869.2011.611.0000 - Foram reprovadas as contas referentes ao exercício de 2010 do diretório regional do PSDB. O parlamentar era o presidente regional do partido, à época. O partido recorre: TSE - Recurso especial nº 13869/2015.

3. STF - Inquérito nº 3711/2013 - É alvo de inquérito que apura corrupção passiva, referente aos esquemas de corrupção entre a empreiteira Gautama e administradores públicos no município de Sinop (MT), à época em que o parlamentar era prefeito. Em 2007, ele chegou a ser preso preventivamente na Operação Navalha da Polícia Federal, que investigava o mesmo caso.

4. STF - Inquérito nº 3936/2014 - É alvo de inquérito que apura incitação ao crime e formação de quadrilha. O parlamentar teria incentivado invasões a terras indígenas. O processo corre sob segredo de justiça.

5. STF - Inquérito nº 3331/2011 - É alvo de inquérito que apura crimes de responsabilidade. De acordo com a acusação, o parlamentar teria superfaturado a execução de obras de pavimentação e drenagem em trecho urbano da BR-163 de forma a facilitar o desvio de recursos públicos, entre 2001 e 2006, quando era prefeito de Sinop (MT). A denúncia foi recebida quanto ao crime de responsabilidade por desvio ou apropriação de bem público. É alvo de inquéritos que apuram crimes da Lei de Licitações:

6. STF - Inquérito nº 3629/2013

7. STF - Inquérito nº 3630/2013

8. STF - Inquérito nº 3631/2013

9. STF - Inquérito nº 3632/2013 É alvo de ações civis de improbidade administrativa, movidas pelo Ministério Público: 

10. TRF-1 - Seção Judiciária de Sinop - Ação civil pública nº 0008989-70.2009.4.01.3603

11. TJ-MT Comarca de Sinop - Processo nº 5474-51.2005.811.0015

12. TJ-MT Comarca de Sinop - Processo nº 7381-51.2011.811.0015

13. TJ-MT Comarca de Sinop - Processo nº 15226-66.2013.811.0015

14. TJ-MT Comarca de Sinop - Processo nº 15673-54.2013.811.0015

15. TJ-MT Comarca de Sinop - Processo nº 15934-19.2013.811.0015 Com dano ao erário:

16. TJ-MT Comarca de Sinop - Processo nº 1165-50.2006.811.0015

17. TJ-MT Comarca de Sinop - Processo nº 10711-03.2004.811.0015

18. TJ-MT Comarca de Sinop - Processo nº 1872-86.2004.811.0015 http://www.atlaspolitico.com.br/perfil/2/407 

Sub-relator: Valdir Colatto (PMDB-SC), Bancada evangélica – Bancada ruralista 
Engenheiro Agrônomo. Ex-Secretário de Agricultura de Santa Catarina
NÃO RESPONDE EM PROCESSOS JUDICIAIS
http://www.atlaspolitico.com.br/perfil/2/396 

Sub-relator: Tereza Cristina (PSB-MS), Bancada ruralista
Empresária. Neta de Fernando Corrêa da Costa, ex-governador de Mato Grosso
NÃO RESPONDE EM PROCESSOS JUDICIAIS
http://www.atlaspolitico.com.br/perfil/2/178901

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Como acabar com os direitos quilombolas em uma só linha de texto

Passam a ser competência do Ministério da Educação e Cultura: "..delimitação das terras dos remanescentes das comunidades dos quilombos, bem como determinação de suas demarcações, que serão homologadas mediante decreto" (Medida Provisória 726 do Governo Temer, Brasília, 12 de maio de 2016; 195º da Independência e 128º da República).


Em seguida um interessante artigo da Comissão pro Índio sobre as graves consequências do artigo da Medida Provisoria do Governo Temer que transfere a "delimitação e demarcação das terras quilombolas" do Incra ao Ministério da Educação e Cultura.

Retrocessos na Política de Regularização de Terras Quilombolas 
A Medida Provisória 726 que dispõe sobre a organização da Presidência da República e dos Ministérios, publicada em 12/05, incluiu entre as atribuições do novo Ministério da Educação e Cultura a regularização de terras quilombolas. Isso indica que o Incra perde a atribuição e a volta a um modelo do início dos anos 2000 que já se mostrou incapaz de dar efetividade ao artigo 68 do ADCT da Constituição Federal.

Do Blog da CPI-SP
Segundo informações levantadas pela Comissão Pró-Índio, o Incra trabalha com a hipótese de erro no “corte e cola” na elaboração da MP, mas não descarta a intenção do governo Temer de retomar o procedimento que vigorou entre 1999 e 2003.
Em 1999, o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) transferiu para o Ministério da Cultura a competência para “cumprimento do disposto no art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias”. E a Fundação Cultural Palmares foi o órgão naquele Ministério responsável pela execução da titulação.
Em 2003, em atendimento à reivindicação do movimento quilombola e seus parceiros, o governo Lula devolveu ao Incra a competência relativa a delimitação das terras dos remanescentes das comunidades dos quilombos (Decreto 4.883/2003) e estabeleceu novos procedimentos para a titulação (Decreto 4.887/2033).
Apesar da MP 726, o entendimento é que os Decretos 4.883/2003 e 4.887/2003 subsistem até que sejam expressamente revogados. A regularização das terras quilombolas e a atuação do Incra estão na mira dos ruralistas. Deputados federais da bancada ruralista conseguiram criar e controlar uma Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e a Fundação Nacional do Índio (Funai).
E entre as medidas da “Pauta Positiva” apresentada pela Frente Parlamentar Agropecuária e o Instituto Pensar Agropecuária ao vice-presidente Temer estão a revisão das funções do Incra e a aprovação da PEC 215 que transfere para o Legislativo a competência de regularização das terras indígenas e quilombolas. Portanto, a eventual alteração nas competências da política de regularização fundiária deve ser compreendida no contexto de forte pressão para retrocessos no reconhecimento de direitos das comunidades quilombolas e povos indígenas.
A transferência para o Ministério da Cultura compromete a efetividade do direito constitucional dos quilombolas à propriedade de suas terras, uma vez que o órgão não possui expertise, pessoal técnico nem estrutura para implementar tal política. Lembrando que mesmo o Incra encontra sérias dificuldades (decorrentes de limitações de pessoal e orçamento e também de pressão política) para encaminhar os mais de 1.500 processos para titulação de terras quilombolas.

Foto: Lúcia Andrade

13 de maio de 2016

quarta-feira, 11 de maio de 2016

“Quem está bebendo cachaça e fazendo samba está fazendo folclore e montando um agrupamento de cultura negra, mas não esta fazendo quilombo. Está fazendo folclore”

“Quem está bebendo cachaça e fazendo samba está fazendo folclore e montando um agrupamento de cultura negra, mas não esta fazendo quilombo. Está fazendo folclore”: esta é a perola do sociólogo Roque Callage Neto durante o seu depoimento na CPI da Funai e do Incra. Ele se acha o detentor da verdade, não importa se em total discordância com a Associação Brasileira de Antropologia - ABA, com as normas previstas na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário, e com a mesma Constituição de 1988. O fato é que o sociólogo Roque Callage Neto, é contratado para produzir contra laudos nos procedimentos administrativos de Demarcação em Territórios Quilombolas, o que pode explicar as suas posições ideológicas contrarias aos direitos quilombolas, mas somente um bom psicanalista poderia explicar o raivoso racismo contido nas declarações do cara.

Vale a pena ler o relato do depoimento no Observatório quilombola de Koinonia.

Sociólogo discorda de critérios utilizados pelo Incra para demarcar terras quilombolas 

Fonte: CenárioMT 11/05/2016
O sociólogo e doutor em Antropologia Roque Callage participou de audiência na CPI da Funai e do Incra.
 O sociólogo Roque Callage Neto disse nesta terça-feira (10), na Câmara dos Deputados, que discorda dos critérios utilizados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para delimitar áreas remanescentes de quilombos no País.
Em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito da Fundação Nacional do Índio (Funai) e do Incra, Callage Neto, que tem doutorado em Antropologia, questionou laudos antropológicos oficiais usados para o reconhecimento dessas áreas no Brasil. Para ele, os critérios defendidos pela Associação Brasileira de Antropologia (ABA) não permitem a clara distinção entre comunidade quilombola e comunidade rural afro-brasileira carente. “Quem está bebendo cachaça e fazendo samba está fazendo folclore e montando um agrupamento de cultura negra, mas não esta fazendo quilombo. Está fazendo folclore”, disse Callage Neto, que produz laudos antropológicos em defesa de agricultores que tem suas propriedades atingidas por demarcações de territórios quilombolas.

Resistência e contestação 
O sociólogo, por exemplo, sustenta que uma das características que não são levadas em consideração nos laudos oficiais é a presença da ideia originária de fuga, resistência e contestação do regime monárquico vigente à época. “Remanescente tem que ser rural. Tem que ter a memória da comunidade que existiu lá atrás e não precisa ser descendente biológico de afro, porque muitos brancos prisioneiros fugiam e eram adotados. O quilombo era miscigenado”, sustentou.
Em resposta à deputada Teresa Cristina (PSB-MS), Callage Neto defendeu ainda mudanças na política de demarcação de territórios quilombolas. Para ele, a decisão final deveria ser tomada pelo Congresso, ouvindo conselhos da sociedade civil e tendo a participação das comunidades tradicionais envolvidas. Ele criticou as normas previstas na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário, que preveem a autodenominação dos povos quilombolas para o reconhecimento de territórios.

Laudos fraudulentos 
O deputado Alceu Moreira (PMDB-RS), que preside a CPI e propôs a vinda de Callage Neto, chamou atenção para o exemplo específico de Morro Alto, no Rio Grande do Sul, onde segundo ele, as áreas quilombolas foram definidas com base em laudos fraudulentos. “A ata original que origina a declaração que aquilo é um quilombo tem duas pessoas que assinaram e que são as mesmas que fizeram o laudo. São pesquisadores da URGS.
Essa é a denúncia e a razão desta CPI”, disse Moreira, justificando a vinda de Callage Neto como contraponto da versão oficial. “Senão não há como fazer a contestação na Justiça.”

Direito à posse da terra 
Por sua vez, a deputada Janete Capiberibe (PSB-AP) acusou a CPI de legitimar a tese que nega o direito à posse da terra aos povos originários como negros, índios e comunidades ribeirinhas. Rebatendo a fala do depoente, a deputada quis saber por que os povos quilombolas haveriam de perder a posse de suas terras ao se tornarem professores, advogados ou médicos.
Callage Neto voltou a dizer que é preciso diferenciar comunidades rurais de negros carentes e quilombos. “Não me filio aos antropólogos da Aba que acham que tudo é quilombo. Mocambos e cortiços não são quilombos. Na época da República Velha, os primeiros presidentes deveriam ter feito essas correções e dado terras devolutas a essas pessoas. Pensar nisso agora é anacronismo”, disse.

Propriedade definitiva 
Por fim, o deputado Valdir Colatto (PMDB-SC) destacou o preceito constitucional que assegura apenas aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras o direito à propriedade definitiva. Colatto ainda criticou o fato de nem todas as comunidades quilombolas serem favoráveis à posse coletiva das terras e questionou se a ABA determina que os antropólogos sigam uma orientação na produção dos laudos.
Segundo Callage Neto, não existe nenhum tipo de pressão da associação, uma vez que não se trata de conselho profissional.

Fonte: http://koinonia.org.br/oq/noticias-detalhes.asp?cod=14681